quinta-feira, 19 de novembro de 2009

take a walk

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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Correspondêcia V

Dearest,

Ça fait longtemps que não te escrevo. Ando ocupada demais com trabalho e vai crescendo tímida uma vontade de passar um tempo dedicada à vida acadêmica, fora da minha cidade - quiçá do meu país. Não aguento mais ser "babá" de tanta gente, de ter que cuidar dos problemas dos outros como se eu não tivesse os meus próprios. Penso sempre como a vida pode ser mais romântica, sempre às voltas com a literatura e a filosofia. E ter tempo de escrever longas cartas, esticar o pranto por um amor desatado, criar um gato sozinha e ter uma luminária com luz amarela e um cordãozinho para acender e apagar a lâmpada. É muito?

Acordei de um sonho estranho. Misturei estórias e sonhei uma pra lá de disparatada. Eu era a Caetana. Ela me ensina o que é saudade. É isso: eu sonhar que sou ela. A Cae está passando um aperto na Amazônia, pressões de trabalho sem as amigas para compensar.

Minha vida amorosa é uma bagunça. Eu sou mesmo incurável. Talvez não exista ele que fará "um iê iê iê romântico". Minha covardia de admitir que não existe é tão grande, que escrevo no futuro. Alguma esperança ainda fica. Te escrevo o que penso, isso incomoda? Não vou muito com telefones.

E ainda exercito pensamentos sobre a duração das palavras. Morre com o autor x Eterniza-se x É sempre outra quando lida, relida e sempre a mesma. Eu tenho essa queda infinita por Heráclito. Que vida não deve ter levado esse ermitão...!

Se me vissem agora, essa tela, eu escrevendo uma carta para mim mesma enquanto as latas de negativo vão se queimando e o pânico da equipe aumentando...

Estou bem, apesar de às vezes parecer que não. É bem verdade que estou ótima, mas isso soa um pouco histérico.

Sempre sua,

Laurita.

sábado, 10 de outubro de 2009

Lovely Laura,

Existem os dias de chuva para dar chance à tristeza. Sorrow. Deixar escorrer, escorrer, até derreter o céu. Há um magnânimo prazer nisso. São dias de olhar antigas fotografias da época em que toda família era unida, rever musicais com happy endings, vestir-se com proposital desleixo e fingir ouvir do amor da sua vida: como você está linda...

Você não me contou da última viagem, visitou a antiga casa de Bishop? Guardo preciosas lembranças dos passeios, que fins de tarde mais melancólicos os de Ouro Preto!

Tenho pensado numa estrofe de Drummond, em "Memória":

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

O que você acha disso, Laurita? Não por acaso, o poema é regido pelo título. Tudo acaba, não acaba? E mesmo a memória... Será influência da chuva? Ainda assim, o fim não me dá medo. Começar, sim. Pense bem, na minha idade começar qualquer coisa soa como acordar numa segunda-feira pensando sábado. Ainda assim, pretendo começar novo romance e minha primeira pessoa será como você: com gosto por solidão, caligrafia e pedras, coisas da memória.

Deixa chover. E te deixo uma pergunta: Pedras são só no presente?

Amor, sempre,

L.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Correspondência IV

My dear,

Não pude esperar sua resposta. Hoje voltei à cadeira da universidade com um atraso considerável, mas que não me preocupa. Meu despertador começou a tocar às 5h30 e de 10 em 10 minutos tornava a me chamar. Cada intervalo dava continuidade a sonhos que se acomodavam na fronteira da vigília. Só levantei 1h20 depois (leia-se, 8 intervalos).

Neste momento estou em aula. O professor já me dera aula antes. Ele tem um repertório de gestos curtos que eu poderia reproduzir mimeticamente. É profundamente irritante. Percebe que não estou amarrada em seu discurso viciado e faz um pequeno sermão. Sei ser perfeitamente cínica.

De tão cinza que está o dia, o verde adormeceu. Uma tristeza que não abate, doce melancolia tropical. Quando você vem visitar essa cidade?

Neste fim-de-semana vou à Ouro Preto, como recomendado. Infelizmente tem amigos hospedados na mesma pousada. Como diz meu amigo Carlos, seria preferível estar um quarto distante de todos e despistá-los com um encontro marcado e não comparecido. Essas são as horas que produzem a literatura.

Ontem tive uma experiência incômoda no supermercado. O circuito de carrinhos formou uma tremenda confusão. Todos se olhavam com um laivo de impaciência nos olhos. Eu reparava o consumo de alguns e na maioria deles havia um pedaço de carne úmida, envolta em plástico fino. Imaginei como seria a carne que se esconde atrás da pele daquelas pessoas. Macabro, não?

Te escreverei de Ouro Preto, quando estiver furando um encontro com os amigos.

Com um beijo,

Laurita.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

My beloved one,

Vou tentar te explicar por uma metáfora que provavelmente não alcançará o que me engarrafa a garganta: é como se as gavetas estivessem emperradas, sem óleo. Hoje quando acordei precisei de um colírio, e a gaveta onde meu pai o guarda deslizava suave. É mais ou menos assim que almejo estar em breve.

Tenho duas grandes amigas na Amazônia, uma mais chegada para o Pará, a outra para o Amazonas. Não tenho endereço de nenhuma delas para lhes enviar correspondências. Imagino como seriam as cartas vindas de lá, com folhas secas dentro do envelope e pequenas sementes. Uma delas mora em um endereço onde provavelmente o correio não chega. É uma ilha pluvial. Ela mora de frente à "praia". A outra amiga chefia uma reserva florestal. No início recusou, mas já imagino o coldre em sua cintura. La justiciera cha cha cha.

O Rio de Janeiro é uma cidade da qual não dá para falar. Deve ser uma experiência completamente diferente para cada habitante. Politicamente, um enigma. Varrem as mesas e cadeiras das calçadas no momento em que são feitos inúmeros elogios às "varandas" cariocas. Nem contra, nem a favor. O problema é que por aqui tudo é ou preto ou branco.

Hoje é um dia pra lá de especial. Tenho um encontro marcado há 09 anos. No dia 09 do mês 09 do ano de 2000, 6 amigas ainda adolescentes combinaram um jantar no dia 09 do mês 09 do ano de 2009 às 09 da noite no Doce Delícia, um restaurante que frequentávamos. Àquela época imaginávamos como estaríamos, se casadas, com filhos, trabalhando, gays, felizes, morando fora do Rio, gorda ou magra, e o mais importante, se seríamos ainda grandes amigas. Muita coisa aconteceu. Nem todas estarão presentes. Uma, como disse, mora na Amazônia. Outra perdeu o contato, ainda que eu a encontre de vez em quando. De resto, somos todas grandes amigas com a mesma imaturidade de antes.

Penso em você com grande amizade .

Todo o meu amor,

Laurita.

* nota: o Doce Delícia ainda existe, embora especialmente nesta data fechara para reformas. Já era hora de evoluir. Champagne e potinhos.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Correspondência II

Minha cara,

Tuas cartas me confortam tanto quanto inquietam. Gosto da tua definição de amor. Mas ser abandonada pelo anjo não é coisa boa. Nós mulheres somos luas, então respeite a maré. Não se embrulhe em jornal para apressar o amanhã, como os frutos. Teu calendário é inadiável.

Ao invés de escrever para mim, tente escrever para Heráclito. Só não espere resposta pelo correio. Como singela homenagem a sua filosofia, queime a carta. Decerto chegará a ele.

Você tem que se acalmar. Pílulas anticoncepcionais são pequenos dinamites que começam a estourar por dentro, terminando por irrupções externas. Uma tristeza. Espeta um alfinete para cada dia, dando ordem ao ciclo e desordem à mente. Mas aguenta.

Quero chegar a tua casa como a descreveu para mim: com orquídeas brancas penduradas verticalmente na parede de pedra, e te encontrar à mesa com tuas armas principais: nanquim e o tinto para brindarmos.

Você tem dormido bem?

Te beijo com carinho,

L.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Resposta

Laurita,

Te escrevo com ar de urgência.
O amor é um velho pássaro que nunca pousa.
Guarde suas melhores manhãs em púcaros mal aerados.
Parece que estou sempre na próxima esquina
à espera do último expresso.
Sabe quantas coisas tenho pra te falar?
Outro dia lincharam um senhor no bar do Russel
- foram os vizinhos dele;
É irônico embrulhar frutos em jornal para apressar sua maturação.
Vi um arrastão em Ipanema, foi até bonito o desenho que fez.
Gostaria de pintar em vidro. Tenho uma tela incompleta no ateliê de meu amigo.
(afinal, o que de fato se completa? a volta na Lagoa?)
Se anjos existem, o meu me abandonou. Estou à sorte.
O movimento da cidade é natureza morta.
Espero tua vinda, quando minha casa terá na parede de pedra
seis orquídeas brancas, pintadas como fossem sardinhas
e sobre a mesa onde estarei, taças de vinho tinto
o caderno, a caneta de nanquim e a calma das lagoas.
Com um beijo e o carinho que te guardo,

domingo, 9 de agosto de 2009

Correspondência

Bath, 1955

Cara Laura,

Sinto que devemos intensificar nossas correspondências. Deve ser insatisfatório para você escrever sempre a um destinatário que, por uma tendinite, não pode lhe escrever de volta - ainda que você sempre adivinhe a resposta dele. Trocar cartas com a distância de anos é como ter a calma dos vinicultores. E quando chega-se-lhe o lacre, degustamos com mais apuro.

Preciso lhe dizer certas coisas que tenho notado. Amar é realmente um estado bruto. Mas não só. Aprender a amar é dar a forma adequada a essa matéria violenta. Não se engane: a História não é vingativa. Você ainda vai viver o amor em paz. Sei que agora te parece impossível, conto de fadas, a cura do câncer. Tenho escrito.

Você ainda não foi a Tiradentes. Nem Ouro Preto. Paraty já não serve mais para teu exílio temporário. Tem que ir atrás dessas cidadelas, de sapatos confortáveis e um bom chapéu de palha. Procure a "Casa Mariana" em Ouro Preto. Pertenceu a Elizabeth Bishop - fetiches à parte.

Não desista de teu livro. Te entendo quando me diz o quanto é estranho ser chamada de "poeta". Sobretudo entre tantos poetas medíocres, pode soar um pouco cafona. Você sabe bem que não é, sabe da dignidade. Mire Armando, Augusto, Alice. Fiquemos com a letra "A".

Teu trabalho parece mesmo emocionante. É bom que saiba bem que você está apenas calçando uma ponte. Existe o outro lado e você já o vê. Talvez tenha que ter um pouco mais de disciplina para escrever tuas peças. Entendo que são muitas ofertas, tarefa difícil essa da recusa. E o teatro? Acho que para você seria deliciante. Sairia do incômodo que te causa o cinema: o artificialismo, a falta de contato. Sabe que no teu caminho mais um "A" se impõe. Deveria dar uma chance. Será enriquecedor.

Não quero contar de mim, hoje só queria falar de você. 2009 deve ser um ano muito interessante. Te abraço e beijo com carinho, desde 1955, Bath.

L.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

moscou, de eduardo coutinho

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quinta-feira, 18 de junho de 2009

half awake